IDH, Coeficiente de Gini e Suas Incongruências Analíticas

“Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”

Uma parábola indiana conta que certa vez um príncipe mandou chamar um grupo de três cegos para um experimento. Após os reunir no pátio do seu palácio, mandou trazer um elefante. Em seguida, conduzindo-os pelas mãos, os cegos foram levados até o paquiderme. Após o tocar, cada um descreveu o que havia sentido. O primeiro, apalpou a perna de animal e disse que sentiu uma árvore; o segundo, tocou sua tromba e descreveu uma cobra; o terceiro, tocou sua orelha e disse haver apalpado um grande leque aberto.

Segundo Simon Kistemaker, uma parábola é uma história tirada do cotidiano e que permite por meio de uma experiência ensinar novas lições. Tal qual a parábola dos três cegos, o professor Karl Popper ensinou que uma análise científica não pode ser deduzida com base em um único exemplo.

Com o propósito de avaliar o progresso econômico de um país ou região, inúmeros meios foram elaborados. No entanto, nota-se que alguns dos meios empregados para o estudo do progresso econômico estão repletos de assimetrias, podendo expressar – em muitas circunstâncias – uma visão distorcida de uma realidade mais complexa, tal qual a parábola indiana dos três cegos. Na tentativa de compreender o que observam, os economistas desenvolvem teorias; e, na tentativa de as comprovar, fazem observações sistemáticas. Entre meados dos séculos XVIII e XIX, os estudiosos da ciência econômica formulavam suas análises com base em observações casuais.

No entanto, com as estatísticas divulgadas em meados do século XX, os economistas passaram a dispor de um conjunto de informações abrangentes e objetivas. As informações são – em grande medida – levantadas pelos governos e com base nas investigações são calculados indicadores, resumindo o estado das economias.

Com o propósito de avaliar o bem-estar das sociedades, diversos meios foram desenvolvidos. Dentre esses, pode-se mencionar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Criado por Mahbub ul Hap e Amartya Sen na década de 1990, seu propósito fora o de oferecer um contraponto ao índice de Paridade de Poder de Compra per capita (PPP). De forma resumida, os três pilares que constituem o IDH são: saúde, diagnóstico feito com base na expectativa média de vida de uma população; educação, anos de estudo forma; e padrão de vida, com base no PPP. Malgrado amplie a perspectiva, o IDH está repleto de assimetrias.

Para José Gramados, um índice (index) é um valor numérico que reflete o tamanho relativo de uma variável em um determinado período. Seu propósito é o de comparar os resultados coletados em uma investigação com os números apresentados em uma pesquisa de referência. Ou ainda: seu propósito é mostrar de forma simples e concisa a mudança das variáveis de um período para outro.

Considerando o anterior, o conceito não pode ser aplicada ao IDH, uma vez que este não deixa claro o que é medido e tampouco define de forma cristalina o que seria “desenvolvimento humano”.

Em primeiro lugar, deve-se considerar a palavra “desenvolvimento” e o adjetivo “desenvolvido”. Os termos estão associados a uma noção de progressão; isto é, um processo de evolução a um estado para um outro mais aprimorado ou desejado. De acordo com a 7ª edição do Dicionário de Biologia da Oxford University Press, publicado em 2008 e organizado por Elizabeth Martin e Robert Hine: com relação aos seres biológicos, o termo desenvolvimento (development) começou a ser aplicado no final do século XIX e é compreendido como um complexo processo de crescimento e maturação que ocorre nos organismos vivos. O desenvolvimento biológico é
entendido como uma série de mudanças que os organismos sofrem na passagem de uma determinada etapa para uma outra, mas com maior grau de complexidade e organização.
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Considerando o homem um ser orgânico, o que poderia ser compreendido por desenvolvimento humano, afinal?

Uma hipotética cidade no interior do Brasil, que dispõe de uma universidade com um grande corpo docente, poderia ser considerado mais “humanamente desenvolvido” do que um município vizinho, dominado por artesãos que nunca tiveram uma educação formal, mas que possuem grande manejo em seus ofícios? Obviamente; do ponto de vista científico, o IDH é uma avaliação no mínimo questionável e sujeita a muitas interpretações errôneas.

O nível de desigualdade econômica existente em uma sociedade e sua evolução com o passar do tempo são temas de interesse por parte da academia e da opinião pública. Com o passar do tempo, diversos indicadores foram desenvolvidas propondo estudar a distribuição de renda; no entanto, segundo Fernando Medina, Assessor Regional em Estudos Estatísticos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o Índice de Gini (ou Coeficiente de Gini) apresenta maior aceitação nos trabalhos investigativos. O Coeficiente de Gini tem a vantagem de ser relativamente simples e de fácil interpretação, em especial quando comparado a desigualdade econômica entre os países ou quando avaliado a disparidade monetária de uma região com o passar do tempo.

O Gini também pode ser empregado para avaliar a divisão do ingresso entre diferentes setores da sociedade, como a entre a zona rural e urbanaxiii. O índice pode ser usado não apenas no estudo da distribuição do ingresso, mas também na divisão de qualquer outro recurso, como a discrepância na distribuição de terras. O Coeficiente de Gini estabelece um denominador hipotético entre o zero e o número um, em que o primeiro corresponde a uma distribuição igualitária de um fator entre os agentes, ao passo que o segundo trata-se de uma situação em que todos os recursos estão nas mãos de uma só pessoa.
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Para uma perspectiva comparativa, será apresentado os seguintes dados: Brasil (0.49,7) e Hong Kong (0.53,7xv). Embora tenha maior concentração de renda, o ingresso per capta da região chinesa (US$ 61.000) é superior ao brasileiro (US$15.500); o mesmo pode ser constatado com relação a sua expectativa média de vida (83 anos contra 74), o percentual da sua população adulta alfabetizada (100% e 92,9%) e a competitividade econômica de ambas as partes (60 e 800).

Curiosamente, o gasto percentual do PIB brasileiro com educação é quase o dobro da região chinês (6% contra 3,3%). Um outro parâmetro de grande interesse pode ser constatado ao comparar a concentração de renda do Japão (0.37,9) com a do Camboja (.37,9). Apesar do Coeficiente de Gini apresentar um número idêntico, os dados revelam uma riqueza relativa mais do que dez vezes superior do primeiro (US$ 42.700) em relação ao segundo (US$ 4.000). Por último, considera-se dois países com baixa concentração de renda: Canadá (0.32,1) e Serra Leoa (0.34,0). Embora o Gini seja pouco dissemelhante, a diferença em riqueza material é enorme, US$ 48.100 e US$ 1.800,
respectivamente.

A amostragem levantada permite afirmar que uma assimétrica distribuição do ingresso nacional não é uma premissa válida para investigar a situação econômica de um país, uma vez que os países pobres não são – necessariamente – desiguais. Por exemplo, Haiti (0.60,8) e Serra Leoa (0.34,0). Apesar da diferença distributiva, ambos possuem ingresso per capita de US$ 1.800.

Diferente dos físicos ou químicos, […] “os macroeconomistas não podem realizar experimentos controlados. Em vez disso, devem fazer uso dos dados que a história lhe oferece”. No entanto, com o propósito de compreender porque alguns países experimentam um rápido crescimento econômico nas últimas, enquanto outros atolaram na pobreza, “os macroeconomistas recolhem dados sobre a renda, preços, desemprego e muitas outras variáveis de diferentes períodos e países”. As informações referentes ao produto interno bruto (PIB) real – o qual é expresso em PPP –; a avaliação anual da taxa de inflação; e o índice porcentual de empregados e desempregados, o que constitui a População Economicamente Ativa (PEA,) são especialmente importantes no estudo da macroeconomia e talvez seja o melhor que esta ciência tenha a oferecer, afirmou Gregory Mankiw, professor da Harvard Business School, conselheiro do Federal Reserve Bank de Boston e do Congressional Budget Office.

Refletindo sobre o dinheiro, quiça o posicionamento do sir Jeremy Bentham, utilitarista britânico, seja de muito boa valia; escrevera o jurista:

“O termômetro é o instrumento para medir a temperatura; o barômetro é o instrumento para medir a pressão do ar [e o] dinheiro é o instrumento para medir a quantidade de prazer ou de dor. Quem estiver insatisfeito com a exatidão desse[s] instrumento[s] deve encontrar outro[s] mais exato[s.] […] Portanto, que ninguém se surpreenda ou se escandalize ao me ver, ao longo desta obra, avaliar as coisas mediante o dinheiro, pois somente desta maneira é que podemos obter partes alíquotas para nossas medidas.

Autor: Vitor Quaranta, formado em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi e pela Universidade Andreas Bello (Chile); estudante de História da Universidade Federal de São Paulo e pesquisador autodidata.

Referências

IASSIS, Machado de. Memória Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro : Editorial Nova Aguilar, 1994. p. 5.

II COSTA, Isaias. A Parábola dos Cegos e o Elefante. Para Além do Agora, 2014. Disponível em:<https://paralemdoagora.wordpress.com/2014/12/23/a-parabola-dos-cegos-e-o-elefante/>. Acesso: 18/11/2018.

III KISTEMAKER, Simon. J. Introdução. In. __________. As Parábolas de Jesus: Para Compreender As Histórias Que
o Mestre Contou. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana 1. Ed, 1992.

IV POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo : Editora Cultrix, 9. ed.,1993.

V MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editorial S.A., 5. ed., 2004. p.
12.

VI UNDP, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Desenvolvimento Humano e IDH. 2018. Disponível
em: <http://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/idh0.html>. Acesso: 15/11/2018.

VII GRANADOS, José A. Tapia. Algunas Ideas Críticas Sobre el índice de Desarrollo Humano. p. 74-86. In:
Organización Panamericana de La Salud: Washington EUA: Programa de Publicaciones, Bol Oficina Sanit Panam
119(1), 1995.

VIII Porém, apesar das considerações anteriores, a definição de “índice composto” pode ser aplicado ao IDH.

IX Idem, p. 74.

X Idem, p. 75-6.

XI Martin, E., & Hine. Development. In A Dictionary of Biology. : Oxford University Press. 2018. Disponível em:
<http://www.oxfordreference.com/view/10.1093/acref/9780199204625.001.0001/acref-9780199204625-e-1232>.
Acesso: 16/11/2018.

XII MEDINA, Fernando. Consideraciones Sobre El Índice de Gini Para Medir La Concentración del Ingreso. Serie
Estúdios Estadísticos y Prospectos. N.º 9, Marzo 2001. Santiago de Chile: CEPAL, División de Estadística y
Proyecciones Econômicas, 2001. p. 7.

XIII CEARÁ, Governo. Entendendo o Índice de GINI. Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará
(IPECE), ____, p. 7. Disponível: <http://www.ipece.ce.gov.br/publicacoes/Entendendo_Indice_GINI.pdf>. Acesso:16/11/2018.

XIV Idem, p. 3.

XV CIA, Central Intelligence Agency. Distribution of Family Income: GINI Index. Library, Publications: The World
Factbook, 2018. Disponível: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2172rank.html>.
Acesso: 15/11/2018.

XVI Segundo Mankiw, o PIB é o valor de mercado de todos os bens e serviços finais produzidos em uma economia em um dado período. Fonte: MANKIW, N. Gregory. Macroeconomia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos
Editorial S.A., 5. ed., 2004. p. 14.

XVII Em uma economia real, o aumento geral dos preços poderia provocar a elevação do PIB; os economistas chamam o valor dos bens e serviços medidos pelos preços correntes de PIB Nominal – é fácil notar que o PIB calculado dessa maneira não seria uma boa medida para o bem-estar de uma economia, pois se todos os preços dos bens produzidos dobrassem, sem a alteração na quantidade total produzida, o PIB também dobraria. “Uma medida melhor do bem-estar econômico seria contar a produção de bens e serviços da economia sem qualquer influência das mudanças de preços”. O PIB Real é o valor de tudo que é produzido medido por um conjunto de preços constantes; em última instância, mostra o que teria acontecido se as quantidades produzidas mudassem, mas com os preços permanecendo constantes. Os dados referentes ao PIB per capita no presente artigo consideram o PIB Real das economias.

XVIII MANKIW, N. Gregory. Macroeco… p. 4

XIX Idem, p. 12

XX BENTHAM, Jeremy. Manuscritos Inéditos.

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